Poéticas relacionais: obras como rituais de vida
Essa mostra é parte da quarta edição do projeto Panapaná, Novembro das Artes Visuais, que selecionou os artistas Cris Peres, Everton David e Flaw Mendes para a ocupação da Galeria Archidy Picado, com obras inéditas, além de intervenções no Espaço Cultural.
O Panapaná 2019 homenageia a memória do artista paraibano Breno Mattos, que não fez diferença entre ensino, produção artística, cenografia e artesania. Partindo do espírito interativo da obra de Breno, especialmente de seus bonecos, máscaras, bois, e outros “aparatos” de carnaval, busquei uma relação com os Objetos Relacionais de Lygia Clark, cujas experiências entre corpo e obra culminaram com suas sessões de Estruturação do Self. Dos objetos/esculturas de vestir ou experimentar, como Nostalgia do Corpo, A Casa é o Corpo, Corpo Coletivo/Fantasmática do Corpo, Máscara abismo, Lygia passou para os objetos “terapêuticos”, coisas de ativação sensorial usadas diretamente no corpo, como Saco plástico cheio de água ou Pedra e Ar e Almofadas Leves. Os Parangolés e Penetráveis de Hélio Oiticica também são aqui evocados para estabelecer o título da exposição: Poéticas Relacionais.
Muito depois de Lygia, o crítico Nicolas Bourriaud criou e internacionalizou o termo Estética Relacional, para indicar procedimentos artísticos que ativam relações humanas e sociais, que fundam dimensões relacionais. Nesse campo de operação artística além do simbólico também está o postulado da Arte Útil, da artista cubana Tânia Bruguera, e colaboradores, ao conclamar processos de artistas que, além do plano conceitual/simbólico, geram soluções reais, em escalas de 1:1, sustentáveis. São modulações de arte engajada que, assim como objetos relacionais e penetráveis, partem da experiência formal e poética para provocar transformações no indivíduo e na sociedade.
Cris, Everton e Flaw herdaram de Lígia e Hélio, assim como de tantos outros artistas experimentais, o gosto pelo processo de criação que se confunde com um ritual, a pesquisa e o exercício de fazer (gravar, coletar, escrever) como uma extensão do corpo, como forma de vida. Sem a ação do corpo de cada um não existiriam as obras aqui expostas. Seus trabalhos, em si, no espaço da galeria, não se entregam ao toque ou ao uso como um Objeto Relacional de Lygia. Aqui estão como testemunhos poéticos (simbólicos) de suas pesquisas conceituais e formais. No entanto, a partir da seleção para a mostra coletiva do Panapaná, e da minha interação como curador, a própria galeria passou a ser o campo relacional de suas poéticas. Os trabalhos passaram a dialogar e se reinventaram nas tensões de interação. Cada obra se complementou com outra e formou um corpo único, que se oferece ao visitante/participante como um enigma. É preciso sentir-se artista para decifrar a ação desse corpo que imprime e molda formas quase reconhecíveis, que prepara e oferece elixires misteriosos, que escreve uma grafia estranha.
A mostra da Galeria Archidy Picado se expande para as áreas abertas do Espaço Cultural com o título de Espaço Relacional, onde atuo com o desafiador papel de curador e artista (Espaço decolonial/processos). Lá fora as obras tomam proporções maiores e ganham vida além do simbólico. São intervenções na arquitetura do Espaço, mas são, especialmente, objetos de proposição de novas dinâmicas: um Espaço Relacional para uma sociedade mais sensorial, mais sensível.
Por José Rufino
Coletiva 'Poéticas relacionais'
Fundação Espaço Cultural, João Pessoa, 2019