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Apontamentos de cura

Trago notícias velhas quando digo que vivemos uma espécie de erosão da vida humana. O consumo desenfreado dos bens naturais, resultado do estilo capitalista que explora ao limite nossos corpos, produziu uma cascata de efeitos devastadores. Domados e ansiosos, vivemos um apogeu de crises na saúde física e mental da humanidade. Combatendo e elaborando estas falências com generosas dizibilidades imagéticas, olfativas, táteis e políticas é que a produção do artista paraibano Everton David se manifesta.

Apontamentos de Cura, exposição que aqui toma vida, é um recorte ontológico da produção do artista, onde são articulados e apresentados temas centrais de sua poética, como o interesse nas dubiedades das medicinais ocidentais, e a crítica geral ao antropoceno que ocasiona uma vida em existência automática. Ainda que David reconheça a supracitada crise, sua produção não estanca na reflexão das angústias que nos são implantadas, indo além, ao propor neste recorte expositivo, situações efetivas de cura através de produções em tipologias diversas que vão desde instalações interativas, gravuras, objetos e fotografias em cujo tema central está a noção de saúde humana.

A estratégia é simples: trucar todo imaginário que ronda os objetos e utensílios comuns ao campo da saúde médica ocidental. É o caso, por exemplo, de Terapia de Outono, instalação interativa onde uma manta de tecido recheada de folhas secas forma um colchonete. Camas podem ser móveis amigas da depressão, dado que propiciam o afundamento psicológico, ou, servem como macas nas quais os doentes esperam seu fim. Porém, é o afundar nas texturas macias desta instalação de folhas, imantada pelo aroma silvestre, que vai nos fornecer pequenos minutos de imersão de si, de devir, de estar em paz com o corpo e o ambiente. A mesma lógica de hackeamento é utilizada nas obras Alopáticos, e Homeostase, onde cápsulas de remédio são preenchidas com ervas, flores entre outros elementos orgânicos, em contraposição a química sintética e tóxica dos fármacos. Se é para engolir a tristeza, que seja nas suas múltiplas cores, como uma melancolia contraditória de carnaval.

Em Paisagem Sintética a relação entre natureza, meio ambiente, e saúde se torna mais evidente, por meio de uma escultura em formato de comprimido fragmentado, que revela em seu interior uma crosta de falésia, formação geomorfológica típica do litoral nordestino. Abocanhar a natureza é sempre a melhor terapia? O artista reelabora essas imagens que conclamam afetos tristes. Desta feita, fala das doenças e mazelas sem utilizar imagens das mesmas. As evoca através de procedimentos hipotéticos e poéticos de cura, apenas indicando-nas indiretamente. O trabalho de Everton David mostra que os artistas são clínicos, e por isso a arte é um levantamento de sintomas sociais, mas não só, é também uma fabulação de curativos possíveis.

Por Walter Arcela

Individual 'Apontamentos de cura'

Galeria Casarão 34 João Pessoa, 2024

© 2025 feito por ETC. Produção Cultural

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